Língua Portuguesa 1ª série Prova
Épica árcade: O Uraguai, Caramuru e o indígena
Prova com 10 questões sobre O Uraguai e Caramuru: contexto histórico, diálogo com Camões, as mortes de Lindoia e Moema e a representação do indígena antes do Romantismo.
- 10 questões
- cerca de 60 minutos
Língua Portuguesa, 1ª série: Épica árcade: O Uraguai, Caramuru e o indígena
O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, é um poema épico árcade cujo assunto histórico é
- a chegada da esquadra de Cabral ao litoral da Bahia e o primeiro contato com os tupis.
- a guerra de tropas portuguesas e espanholas contra os guaranis dos Sete Povos das Missões, no Sul.
- a expulsão dos holandeses de Pernambuco, com a participação de indígenas e africanos.
- a resistência do Quilombo dos Palmares às expedições organizadas pelos senhores de engenho.
- a conspiração da Inconfidência Mineira contra a cobrança de impostos em Vila Rica.
Os dois principais poemas épicos do Arcadismo brasileiro mantêm relações diferentes com Os Lusíadas, de Camões. Sobre esse diálogo, é correto afirmar que
- Caramuru rompe com o modelo ao adotar versos brancos, enquanto O Uraguai imita as estrofes rimadas.
- O Uraguai repete o modelo, com dez cantos em oitava rima, e Caramuru o abandona, adotando o verso livre.
- O Uraguai se afasta do modelo, com cinco cantos em versos brancos, e Caramuru o segue, com dez cantos em oitava rima.
- os dois poemas abandonam o verso e são escritos em prosa poética, como os romances indianistas de José de Alencar no século XIX.
- os dois poemas seguem rigorosamente o modelo, com dez cantos, oitava rima e a viagem de Vasco da Gama como assunto.
Leia os versos que descrevem Lindoia morta.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece,
Tanto era bela no seu rosto a morte!Basílio da Gama, O Uraguai (1769), Canto IV.
O último verso produz um efeito de sentido baseado na
- aproximação paradoxal entre beleza e morte, que torna a cena comovente em vez de horrenda.
- gradação de imagens violentas, que conduz o leitor do susto ao horror diante do veneno.
- descrição objetiva e científica do cadáver, comum à poesia naturalista do século XVIII.
- comparação entre Lindoia e as ninfas do Tejo, invocadas no início do poema para inspirá-lo.
- ironia do narrador, que zomba do sofrimento de Lindoia para criticar os costumes indígenas.
Leia os versos em que os guerreiros encontram Lindoia no bosque.
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.Basílio da Gama, O Uraguai (1769), Canto IV.
A repetição da conjunção “e” nesses versos
- enumera as diversas personagens que acompanham Lindoia no momento de sua morte.
- prolonga o movimento da serpente sobre Lindoia e cria tensão (polissíndeto).
- suprime os conectivos entre as ações para acelerar o ritmo da fuga dos guerreiros (assíndeto).
- indica uma oposição entre o que a serpente faz e o que os guerreiros veem no bosque.
- organiza as ações em ordem decrescente de intensidade, do gesto mais forte ao mais leve.
No Canto VI de Caramuru, Diogo Álvares parte de navio para a Europa com Paraguaçu, e várias indígenas nadam atrás da embarcação. Leia a estrofe sobre Moema.
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
— Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se n'água.Santa Rita Durão, Caramuru (1781), Canto VI, ortografia atualizada.
Na estrofe, a morte de Moema
- é narrada com humor, para ridicularizar o comportamento das mulheres indígenas.
- acontece em combate, quando Moema enfrenta os portugueses para defender sua aldeia.
- é provocada por Paraguaçu, que a empurra do navio por ciúme do marido.
- decorre da paixão não correspondida por Diogo, a quem ela acusa de crueldade antes de afundar.
- é celebrada pelo narrador como prova da vitória dos portugueses sobre os povos indígenas.
A crítica costuma apontar uma ambiguidade em O Uraguai. Essa ambiguidade consiste no fato de o poema
- defender os jesuítas como protetores dos indígenas e, ao mesmo tempo, condenar a resistência guarani.
- ser escrito em português, embora todo o enredo seja narrado do ponto de vista do exército espanhol.
- exaltar a natureza europeia e desprezar a paisagem americana, apesar de se passar no Sul do Brasil.
- celebrar a Inconfidência Mineira e, nas mesmas estrofes, homenagear a rainha de Portugal.
- apoiar a política de Pombal contra os jesuítas e, ainda assim, dar grandeza heroica a Cacambo e Sepé.
Em Caramuru, Paraguaçu é batizada na França e recebe o nome de Catarina. Esse episódio revela que o poema
- ridiculariza Diogo Álvares, apresentado como um aventureiro sem fé e sem compromisso.
- rejeita a influência da Igreja e propõe uma sociedade laica nas colônias portuguesas.
- exalta a colonização portuguesa e a catequese, vistas como caminho de “civilização” dos indígenas.
- denuncia a violência da catequese e defende a preservação das crenças dos povos originários.
- critica a aliança entre colonos e indígenas, apresentada como ameaça ao domínio português.
Muitos historiadores da literatura consideram O Uraguai e Caramuru precursores do indianismo romântico de Gonçalves Dias e José de Alencar. Essa relação se justifica porque as epopeias árcades
- eram escritas por autores indígenas, que contavam a própria história em língua tupi.
- negavam qualquer valor à natureza do Brasil, o que os românticos também fizeram.
- rompiam com a mitologia e as formas clássicas, como fariam depois os modernistas de 1922.
- tinham o objetivo de denunciar a escravidão africana, tema central do indianismo.
- já faziam do indígena e da paisagem americana matéria literária, ainda que em moldes clássicos.
Assim como O Uraguai, o poema Caramuru foi composto em versos brancos, isto é, sem rimas, e sem divisão em estrofes regulares.
( ) Verdadeiro ( ) Falso
Leia novamente os versos sobre a morte de duas personagens indígenas nas epopeias árcades.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece,
Tanto era bela no seu rosto a morte!Basílio da Gama, O Uraguai (1769), Canto IV.
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que irado freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
— Ah! Diogo cruel! — disse com mágoa,
E, sem mais vista ser, sorveu-se n'água.Santa Rita Durão, Caramuru (1781), Canto VI, ortografia atualizada.
Compare as duas cenas. Em seu texto, de seis a oito linhas: (a) aponte uma semelhança na forma como Lindoia e Moema são apresentadas; (b) posicione-se sobre o seguinte comentário de um crítico: “Nas duas epopeias, a mulher indígena ganha destaque sobretudo quando morre por amor”. Use ao menos um trecho dos versos para sustentar sua posição.
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