Datas e projetos
Consciência Negra na escola: o que diz a lei e atividades por etapa
Atividades de Consciência Negra da Educação Infantil ao 9º ano, o que dizem as Leis 10.639, 11.645 e 14.759 e um projeto de duas semanas pronto para usar.
Por Albert. Publicado em . Leitura de 9 min.
O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, 20 de novembro, faz parte do calendário escolar desde a Lei 10.639/2003 e é feriado nacional desde a Lei 14.759/2023. A mesma lei de 2003 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira no Ensino Fundamental e no Médio, ampliado em 2008 para incluir a cultura indígena. Por isso, as atividades de Consciência Negra fazem mais sentido como ponto alto de um trabalho que atravessa o ano do que como evento isolado.
Em 2026, o dia 20 de novembro cai numa sexta-feira. Como é feriado, as atividades e qualquer culminância precisam acontecer até quinta-feira, dia 19. Abaixo estão o que dizem as leis, atividades para cada etapa, um projeto de duas semanas e os cuidados que evitam os erros mais comuns.
O que diz a lei sobre a Consciência Negra na escola
| Norma | O que estabelece |
|---|---|
| Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 | Incluiu na LDB o art. 26-A, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, e o art. 79-B: “O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra'”. |
| Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008 | Deu nova redação ao art. 26-A: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.” |
| Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 | Instituiu o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, em 20 de novembro, “data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares”. |
| Lei nº 14.759, de 21 de dezembro de 2023 | Declarou feriado nacional o dia 20 de novembro, para a celebração do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. |
| Resolução CNE/CP nº 1, de 17 de junho de 2004 | Instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, que se aplicam às instituições de ensino de todos os níveis e modalidades. |
Três pontos da lei costumam passar despercebidos. Primeiro, o conteúdo obrigatório não é só a escravidão: o parágrafo 1º do art. 26-A fala em estudo da história da África e dos africanos, da luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, da cultura negra e indígena e da participação desses grupos na formação da sociedade nacional. Segundo, o parágrafo 2º manda que esses conteúdos sejam trabalhados “no âmbito de todo o currículo escolar”, com destaque para artes, literatura e história, e não só numa disciplina. Terceiro, o art. 26-A menciona o Ensino Fundamental e o Médio; para a Educação Infantil, a referência são as diretrizes de 2004 e a BNCC, que traz objetivos como “manifestar interesse e respeito por diferentes culturas e modos de vida” (EI03EO06).
Consciência Negra o ano todo: como sair da data comemorativa
Um trabalho que se resume a uma apresentação em novembro costuma reforçar estereótipos em vez de combatê-los. Quatro mudanças simples ajudam:
- Distribua o tema no ano. Escolha uma unidade por bimestre em que autores, cientistas, artistas ou histórias africanas e afro-brasileiras apareçam como conteúdo, e não como ilustração.
- Mostre protagonismo, não só sofrimento. A escravidão precisa ser ensinada, mas a história da população negra no Brasil também é de resistência, invenção, ciência e arte.
- Trabalhe a África como continente. Muitos alunos chegam ao 6º ano tratando a África como um país. Mapas, reinos antigos e países de hoje desfazem isso.
- Olhe para o material da sala. Quem aparece nos cartazes, nos livros da caixa, nas imagens das atividades? A representação diária ensina tanto quanto o projeto.
Atividades de Consciência Negra para a Educação Infantil
Na Educação Infantil, o caminho é a identidade, o corpo e a convivência com a diversidade, como prevê o objetivo de “demonstrar valorização das características de seu corpo e respeitar as características dos outros” (EI03EO05).
- Espelho e autorretrato: diante do espelho, cada criança observa a cor da pele, o cabelo, os olhos. Depois, mistura tintas (marrom, amarelo, vermelho, branco) até encontrar o próprio tom e pinta o autorretrato. A conversa sobre o “lápis cor de pele” surge sozinha.
- Bonecas e brinquedos diversos: no faz de conta, garanta bonecas negras, indígenas e brancas, com cabelos de texturas diferentes, de forma permanente, e não só em novembro.
- Histórias com protagonistas negros: livros como Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado, e O cabelo de Lelê, de Valéria Belém, rendem rodas de conversa sobre beleza e identidade.
- Música e brincadeiras: cantigas, roda de percussão com instrumentos como agogô e ganzá e jogos de semeadura da família mancala, de origem africana, que podem ser montados com caixas de ovos e sementes.
Há propostas para essa faixa etária nas atividades do campo O eu, o outro e o nós.
Atividades para os anos iniciais (1º ao 5º ano)
- Galeria de personalidades (2º ao 5º ano): cada dupla pesquisa uma pessoa negra que marcou a história do Brasil, como Luiz Gama (direito e abolicionismo), André Rebouças (engenharia), Carolina Maria de Jesus (literatura), Milton Santos (geografia) ou Conceição Evaristo (literatura). A dupla produz um cartaz com retrato desenhado, três fatos e uma frase sobre por que essa pessoa importa.
- Palavras que vieram da África (3º ao 5º ano): a turma investiga no dicionário a origem de palavras como caçula, cafuné, quitanda e moleque, e monta um pequeno glossário ilustrado. A investigação no dicionário já é aprendizagem de Língua Portuguesa.
- Mapa da África (4º e 5º ano): localizar o continente, alguns países e os que têm o português como língua oficial (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), e discutir por que se fala português nesses lugares.
- Quilombos de ontem e de hoje (4º ano): a habilidade EF04GE06 pede identificar territórios étnico-culturais, como “comunidades remanescentes de quilombos”. Pesquise se há comunidades quilombolas no seu estado ou município e, se possível, convide alguém da comunidade para uma conversa.
- Padrões geométricos (Matemática e Arte): observar padrões de tecidos africanos, como o kente, de Gana, identificar simetrias e criar padrões próprios em malha quadriculada.
Atividades para os anos finais (6º ao 9º ano)
Nos anos finais, a BNCC de História trata diretamente do tema em várias habilidades (BNCC). Algumas propostas por ano:
| Ano | Habilidade | Atividade |
|---|---|---|
| 7º | EF07HI03 (sociedades africanas antes da chegada dos europeus) | Grupos pesquisam um reino africano e apresentam organização política, economia e saberes em forma de verbete ilustrado |
| 7º | EF07HI16 (comércio de escravizados) | Análise de mapa das rotas do tráfico atlântico e das regiões africanas de procedência |
| 8º | EF08HI20 (legados da escravidão e ações afirmativas) | Debate regrado sobre ações afirmativas, com argumentos baseados em fontes e dados oficiais pesquisados pela turma |
| 9º | EF09HI04 (participação da população negra na formação do Brasil) | Podcast em episódios curtos sobre personalidades e movimentos negros do século XX |
| 9º | EF09HI23 (Constituição de 1988 e combate ao racismo) | Leitura comentada de artigos da Constituição e de reportagens sobre casos de racismo, com foco nos direitos garantidos |
Em Língua Portuguesa, a leitura de contos de Conceição Evaristo ou de trechos do diário de Carolina Maria de Jesus dialoga com a habilidade EF69LP44, de inferir valores e visões de mundo em textos literários. Para ampliar o acervo da escola com autores negros, veja como organizar um projeto de leitura. Para avaliar, há provas de História do 8º ano no acervo.
Projeto de duas semanas para novembro de 2026
Um modelo para a escola toda, com culminância na quinta-feira, 19 de novembro, véspera do feriado:
| Período | Educação Infantil | Anos iniciais | Anos finais |
|---|---|---|---|
| 9 a 11/11 | Espelho, autorretrato e histórias | Escolha das personalidades e início da pesquisa | Pesquisa em fontes e divisão de tarefas |
| 12 e 13/11 | Roda de percussão e brincadeiras | Glossário de palavras de origem africana | Roteiro do podcast ou do debate |
| 16 a 18/11 | Montagem da exposição de autorretratos | Produção dos cartazes da galeria | Gravação e ensaio |
| 19/11 (culminância) | Exposição de autorretratos aberta às famílias | Inauguração da galeria de personalidades | Apresentação dos podcasts e debate |
Depois do feriado, reserve uma aula para cada turma avaliar o projeto: o que aprenderam, o que surpreendeu, o que querem continuar estudando. Essas respostas orientam o trabalho de 2027.
Cuidados para não errar
- Nada de pintar o rosto ou o corpo de crianças para “representar” pessoas negras. A prática, conhecida como blackface, tem uma história de ridicularização e é ofensiva.
- Evite fantasias de “escravo” e encenações de castigos. O sofrimento pode ser estudado com fontes e documentos, sem ser encenado por crianças.
- Trate as religiões de matriz africana com o mesmo respeito dado às outras. Elas fazem parte da cultura brasileira e podem ser estudadas como patrimônio, sem proselitismo e sem preconceito, como em qualquer escola laica.
- Intervenha quando houver racismo na sala. Um apelido ou uma “brincadeira” com a cor da pele ou o cabelo de um colega não é bobagem. Interrompa, converse com quem fez e com quem sofreu, registre e informe a coordenação e as famílias.
- Não coloque o aluno negro como porta-voz. Pedir que ele “conte como é” diante da turma o expõe. Quem quiser falar, fala; ninguém é obrigado.
- Envolva as famílias e a comunidade. Avise com antecedência o que será trabalhado e abra espaço para que as famílias contribuam com histórias, receitas, músicas e objetos.
Para planejar o restante do ano com o tema distribuído pelas disciplinas, as atividades de História e as atividades de Arte do acervo podem ser filtradas por ano e por habilidade.
Perguntas frequentes
Escola particular também é obrigada a ensinar história e cultura afro-brasileira?
Sim. Desde a Lei 11.645/2008, o art. 26-A da LDB fala expressamente em estabelecimentos de ensino fundamental e médio públicos e privados. A redação original, de 2003, já mencionava escolas oficiais e particulares.
Se 20 de novembro é feriado, a escola precisa repor o dia?
O feriado nacional não conta como dia letivo, e o calendário escolar de cada rede precisa garantir o mínimo de dias e horas previsto na LDB. Em geral, os calendários já são elaborados considerando os feriados. Confira o calendário aprovado pela sua rede ou mantenedora.
Quem foi Zumbi dos Palmares?
Zumbi foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, formado no período colonial por pessoas que resistiram à escravidão, num território que hoje corresponde a partes de Alagoas e Pernambuco. Ele foi morto em 20 de novembro de 1695. Por isso a Lei 12.519/2011 escolheu essa data, que chama de "data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares".
Posso trabalhar a Consciência Negra em Matemática e Ciências?
Pode e deve, já que a lei pede que o tema esteja em todo o currículo. Em Matemática, padrões geométricos de tecidos e jogos africanos de estratégia rendem boas aulas. Em Ciências, vale apresentar cientistas negros e discutir o que a genética diz sobre a diversidade humana.
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