Inclusão
Prova adaptada para alunos com TEA, TDAH e dislexia: como fazer
Como fazer prova adaptada sem facilitar o conteúdo: o que a Lei Brasileira de Inclusão garante, ajustes para TEA, TDAH e dislexia e uma questão em duas versões.
Por Albert. Publicado em . Leitura de 9 min.

Prova adaptada é a versão da avaliação que mantém a habilidade avaliada e muda a forma de acesso a ela: enunciados mais curtos, menos itens por página, leitura em voz alta, tempo adicional ou resposta oral, conforme a necessidade de cada aluno. O objetivo não é facilitar a prova, e sim retirar as barreiras que impedem o aluno de mostrar o que aprendeu.
Abaixo estão o que a legislação garante, a diferença entre adaptar e facilitar, ajustes práticos para estudantes com transtorno do espectro autista (TEA), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e dislexia, e um exemplo da mesma questão em duas versões. Um aviso antes de tudo: cada aluno é único. As sugestões são pontos de partida para conversar com a família, com o professor do atendimento educacional especializado (AEE) e com o próprio estudante.
O que a lei garante
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) afirma, no art. 27, que a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurado “sistema educacional inclusivo em todos os níveis”. O art. 28, inciso III, prevê um projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, “assim como os demais serviços e adaptações razoáveis”, para garantir o pleno acesso ao currículo em condições de igualdade. O § 1º do mesmo artigo estende a maior parte dessas obrigações, entre elas a do inciso III, às instituições privadas.
A própria lei define, no art. 3º, inciso VI, adaptações razoáveis como “adaptações, modificações e ajustes necessários e adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido”, aplicados quando requeridos em cada caso. Para os processos seletivos de ensino superior e de educação profissional e tecnológica, o art. 30 lista medidas concretas, como provas em formatos acessíveis e dilação de tempo. Esse artigo não trata da prova do dia a dia na escola, mas é uma boa referência do tipo de ajuste que a lei considera razoável.
Três normas completam o quadro:
- TEA: a Lei 12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, determina no art. 1º, § 2º, que a pessoa com TEA “é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais”. Portanto, as garantias da LBI se aplicam.
- Dislexia e TDAH: a Lei 14.254/2021 trata do acompanhamento integral de educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem. Ela prevê que as escolas de educação básica, públicas e privadas, assegurem cuidado e proteção a esses estudantes, e que eles tenham acompanhamento específico pelos educadores, da forma mais precoce possível.
- Regras da rede e da escola: o regimento e as orientações da secretaria detalham procedimentos, como quem elabora a adaptação e como ela é registrada.
Adaptar não é facilitar: o que muda e o que não muda
| Pode mudar | Não deve mudar |
|---|---|
| Formato: fonte, espaçamento, número de questões por página | A habilidade que está sendo avaliada |
| Linguagem do enunciado: frases curtas, comando destacado | O nível de exigência da habilidade, quando o aluno acompanha o currículo da turma |
| Tempo: tempo adicional ou prova dividida em dois momentos | Os critérios de correção da habilidade |
| Apoio: leitura em voz alta, ledor, escriba, ambiente separado | O registro da avaliação como parte do processo da turma |
| Forma de resposta: oral, por marcação, com material concreto |
Há casos em que a habilidade em si precisa ser ajustada, por exemplo quando o estudante segue um plano individual com objetivos diferentes dos da turma. Essa decisão é tomada em conjunto com a coordenação e o AEE e fica registrada no plano do aluno. A prova, então, avalia os objetivos desse plano, não os da turma.
Prova adaptada para alunos com TEA
Estudantes no espectro são muito diferentes entre si. Algumas necessidades aparecem com frequência e orientam os ajustes:
- Previsibilidade. Avise com antecedência o dia, o local, a duração e o formato. Mostre um modelo de prova anterior. Mudanças de última hora pesam mais do que o conteúdo.
- Instruções literais. “Dê uma olhada no texto” pode ser entendido ao pé da letra. Prefira “Leia o texto e responda à pergunta 1”. Evite ironia e linguagem figurada, a não ser que interpretá-las seja a habilidade avaliada.
- Uma tarefa por vez. Questões com vários comandos (“leia, sublinhe, depois explique e dê um exemplo”) viram itens separados.
- Ambiente. Se a sala é barulhenta, ofereça um espaço mais calmo, com acompanhamento.
- Apoio visual. Numeração clara, uma questão por bloco, espaço delimitado para a resposta.
Veja a diferença num enunciado de Matemática do 5º ano. Antes: “Observe o gráfico e responda: o que aconteceu com as vendas de sorvete quando a temperatura caiu? Dê sua opinião sobre o motivo.” Depois: “1. Olhe o gráfico. Em qual mês a temperatura foi mais baixa? 2. Nesse mês, as vendas de sorvete aumentaram ou diminuíram? 3. Por que isso aconteceu? Escreva uma frase.” A leitura do gráfico continua sendo avaliada; o que mudou foi a divisão da tarefa em passos explícitos e a troca de “dê sua opinião”, que pode soar vago, por uma pergunta direta.
Prova adaptada para alunos com TDAH
- Prova em blocos. Em vez de 12 questões numa folha, três folhas com quatro questões, entregues uma de cada vez.
- Pausas previstas. Uma pausa curta entre blocos, combinada antes, ajuda a manter a atenção.
- Comando em destaque. Negrito no verbo principal: “Circule a fração maior”.
- Lugar estratégico. Longe da porta e da janela, perto do professor.
- Checagem no meio da prova. Passe pela carteira e pergunte “em qual questão você está?”. Muitas vezes o aluno pulou uma página sem perceber.
- Tempo adicional, quando a lentidão vem de interrupções da atenção, e não do conteúdo.
Prova adaptada para alunos com dislexia
- Leitura em voz alta. Leia os enunciados e os textos para o aluno, exceto quando a habilidade avaliada for justamente a leitura autônoma ou a decodificação.
- Formato legível. Fonte sem serifa, em tamanho maior que o habitual (14 pontos, por exemplo), espaçamento de 1,5, texto alinhado à esquerda (sem justificar) e parágrafos curtos.
- Ortografia fora da conta quando não é o foco. Numa prova de Ciências, desvios ortográficos não devem tirar ponto se a resposta está correta.
- Resposta oral ou com escriba. Para questões discursivas longas, o aluno pode responder oralmente e você registra.
- Tempo adicional. A leitura exige mais esforço e mais tempo.
- Menos cópia. Nunca peça que o aluno copie as questões do quadro.
Exemplo: a mesma questão em duas versões (4º ano, Ciências)
Habilidade avaliada: EF04CI03, concluir que algumas mudanças causadas por aquecimento ou resfriamento são reversíveis e outras não.
Versão original:
Na festa junina da escola, a turma de Marina estourou pipoca, derreteu chocolate para cobrir maçãs e colocou gelo nos sucos. Horas depois, o gelo tinha virado água e o chocolate das maçãs tinha endurecido de novo. Com base no texto, explique quais transformações citadas podem ser revertidas e quais não podem, justificando com exemplos.
Versão adaptada:
Leia com atenção. Na festa junina, a turma fez pipoca, derreteu chocolate e colocou gelo no suco.
1. A água do gelo derretido pode virar gelo de novo? ( ) Sim ( ) Não
2. O chocolate derretido pode ficar duro de novo? ( ) Sim ( ) Não
3. A pipoca pode voltar a ser milho? ( ) Sim ( ) Não
4. Explique: por que a pipoca não volta a ser milho? (Você pode responder falando.)
A habilidade é a mesma: distinguir transformações reversíveis de irreversíveis. O que mudou foi o acesso: texto mais curto, uma pergunta por comando, parte objetiva para mostrar a compreensão e uma justificativa que pode ser oral. Para escrever as alternativas sem pistas, vale o guia de como elaborar questões de múltipla escolha.
Checklist e registro da prova adaptada
- Conversei com a família, o AEE ou a coordenação sobre as necessidades do aluno.
- Anotei qual habilidade cada questão avalia, a mesma da prova da turma.
- Reduzi o texto sem retirar informação necessária.
- Separei comandos múltiplos em itens diferentes.
- Defini o apoio (leitura, tempo, ambiente, escriba) e quem vai oferecê-lo.
- Usei os mesmos critérios de correção da habilidade, com uma rubrica quando houver resposta aberta.
- Registrei a adaptação e o resultado no plano do aluno.
- Depois da prova, perguntei ao aluno o que ajudou e o que atrapalhou.
No dia da prova, combine com quem vai apoiar: o ledor lê o texto exatamente como está, sem entonação que sugira a resposta; o escriba registra literalmente o que o aluno diz, inclusive os erros; o tempo adicional e o local são anotados na própria prova. Esses cuidados garantem que a nota reflita o que o aluno sabe, e não a ajuda que recebeu.
A adaptação também vale fora da prova. Os mesmos cuidados servem para a avaliação diagnóstica e para a devolutiva, que, para alunos com TEA, funciona melhor individualmente e com exemplos concretos. Leve o que funcionou ao conselho de classe, para que os outros professores da turma usem as mesmas estratégias.
Uma forma prática de começar: parta de uma prova pronta, como as provas de Ciências do 4º ano, e aplique o checklist questão por questão. Partir de um material revisado economiza tempo e deixa você livre para cuidar do que mais importa: o aluno que vai fazer a prova.
Perguntas frequentes
Precisa de laudo para fazer prova adaptada?
Converse com a coordenação, porque o procedimento varia entre redes. Do ponto de vista pedagógico, a necessidade observada em sala já justifica ajustes de formato, como fonte maior ou leitura em voz alta. O laudo ajuda a planejar, mas a falta dele não deveria impedir o aluno de ter acesso à prova.
A nota da prova adaptada vale igual à dos outros alunos?
Sim. Se a habilidade avaliada é a mesma, a nota tem o mesmo valor. Quando o aluno segue um plano individual com objetivos próprios, a nota se refere a esses objetivos, e isso deve estar registrado.
Os colegas vão achar injusto?
Explique para a turma que cada pessoa precisa de condições diferentes para mostrar o que sabe, como óculos para quem não enxerga bem. Na maioria das turmas, essa conversa resolve. Evite expor o aluno ou detalhar a condição dele para os colegas.
Quem deve elaborar a prova adaptada?
O professor da disciplina, que conhece a habilidade avaliada, com apoio do professor do AEE, que conhece as necessidades do aluno. A coordenação pedagógica ajuda a garantir que o processo seja registrado e acompanhado.